Visitar os jardins da Villa Buonaccorsi, em Potenza Picena, significa entrar em um dos exemplos mais extraordinários de jardim italiano formal ainda preservados na região Marche. Entre terraços geométricos, esculturas monumentais, jogos de água e automações raríssimas, o visitante percorre séculos de história, arte e paisagismo em um único lugar.
Além disso, o conjunto paisagístico dialoga de forma harmoniosa com o território agrícola ao redor e com o azul do mar Adriático, visível ao fundo. Por isso, a Villa Buonaccorsi representa não apenas um patrimônio histórico, mas também uma experiência cultural única.


A origem da Villa Buonaccorsi e sua família histórica
A Villa Buonaccorsi pertenceu por mais de três séculos à família Buonaccorsi, de origem antiga e profundamente ligada à história de Macerata e Potenza Picena. Raimondo Buonaccorsi (1667–1743) deu início à construção do complexo no final do século XVII, transformando um edifício preexistente do século XVI em uma elegante residência de campo, utilizada sobretudo durante o verão.
Ao longo do tempo, a propriedade permaneceu sob os cuidados da família até a última herdeira, a condessa Giuseppina Matteucci Buonaccorsi, que manteve viva a atenção ao patrimônio até a década de 1970.

Um complexo arquitetônico integrado à paisagem
O perímetro da villa abrange uma área de mais de cinco hectares, nas colinas a cerca de 110 metros acima do nível do mar. Dentro desse espaço, encontram-se a residência principal, as antigas cocheiras, uma igreja dedicada a São Filipe Neri, além de edifícios rurais que abrigavam o local onde preparam o azeite, o moinho, a adega, orangerie (local onde as plantas frutíferas de limão e laranja eram guardadas durante o inverno) armazéns e moradias para trabalhadores agrícolas.
No entanto, é o jardim histórico da Villa Buonaccorsi que se destaca como protagonista do conjunto.


O jardim italiano: terraços, simetria e luz
O jardim foi construído em uma sequência de terraços sucessivos, voltados para o sul, garantindo máxima exposição solar. Cada nível apresenta canteiros geométricos, cuidadosamente desenhados.
Logo na entrada superior, o visitante se depara com uma vista cênica impressionante: os terraços em declive, o campo agrícola bem preservado do outro lado do vale e, como cenário, o mar Adriático.


O raro jardim de flores do século XVII
O primeiro terraço, criado no final do século XVII, representa um raríssimo exemplo de jardim de flores do XVII século ainda em sua forma original. Quatro canteiros delimitados por cerca viva cercam uma fonte central decorada com esculturas que representam as estações do ano.
Nesse período, a Itália vivia o auge do colecionismo botânico, com grande interesse por espécies exóticas e flores ornamentais. Assim, a Villa Buonaccorsi reflete essa mudança cultural, que substituiu o foco medicinal das plantas por um novo prazer estético.

Agrumes e o segundo terraço: símbolo de prestígio
No segundo terraço, os canteiros regulares de cantos arredondados ganham destaque, assim como a presença marcante dos frutas cítricas. Vasos de laranjeiras, limoeiros, cidreiras, bergamotas e chinotos decoravam o espaço e formavam longas espaldeiras ao longo dos muros.
Esse elemento reforça outra vertente do colecionismo botânico: a busca por variedades raras de cítricos, apreciadas tanto por suas propriedades terapêuticas quanto pelo uso alimentar.

O “Viale degli Imperatori” e o espetáculo escultórico
Uma escadaria central, ladeada pelas estátuas de Arlecchino e Pulcinella, conduz ao terceiro nível: o famoso Viale degli Imperatori. Ao longo desse eixo monumental, uma sequência de esculturas em trajes antigos cria um cenário teatral impressionante.

Grande parte das mais de cem esculturas do jardim foi produzida pela oficina do escultor veneziano Orazio Marinali. Entre elas, destaca-se a estátua da deusa Flora, assinada pelo próprio artista e encomendada diretamente por Raimondo Buonaccorsi.


Jogos de água e surpresas barrocas
No centro do Viale, uma fonte aparentemente discreta escondia engenhosos jogos de água. Esses mecanismos, ativados de surpresa, molhavam os visitantes e transformavam o passeio em uma experiência lúdica, típica dos jardins barrocos italianos.
Guias ou operadores acionavam os jatos por meio de válvulas ocultas, criando momentos de diversão e surpresa. Diversão garantida para crianças e adultos.

Terraços inferiores: função, natureza e engenho
Os quarto e quinto terraços apresentam um caráter mais funcional. O quarto nível, com grandes canteiros retangulares, sugere a antiga presença de uma horta ou pomar. Já o terraço inferior se distingue por longas paredes vegetais de louro, que indicam a existência de uma ragnaia (estrutura destinada à captura de aves vivas).
Nesse mesmo nível, encontra-se o extraordinário Teatrino degli Automi, uma gruta semicircular decorada com rochas e conchas, onde figuras mecânicas ganhavam vida por meio de sistemas hidráulicos e pneumáticos.

O Teatrino degli Automi: uma raridade absoluta
No centro da gruta está Cecco Birbo, um caçador do século XVIII que tocava trombeta. Ao redor, autômatos representavam um turco músico, um Arlecchino percussionista e a forja mitológica de Efesto, com ciclopes em movimento.
Hoje, esses autômatos figuram entre os mais importantes da Itália, já que estruturas semelhantes desapareceram quase completamente devido à sua fragilidade.
Do jardim italiano ao jardim inglês
No século XIX, o conde Flavio Buonaccorsi ampliou o jardim com a criação do Giardino dei Tassi, um amplo terraço quadrangular ornamentado por teixos monumentais. Paralelamente, o antigo bosque de caça foi transformado em jardim inglês, com caminhos sinuosos, lagos, grutas e pontos panorâmicos.
Essa transformação reflete a mudança de gosto da época, que passou a valorizar a natureza mais livre, as linhas curvas e a assimetria, em contraste com a rigidez geométrica do jardim italiano tradicional.



Por que visitar os jardins da Villa Buonaccorsi
Os jardins da Villa Buonaccorsi em Potenza Picena representam um verdadeiro manual vivo da história do paisagismo europeu. Eles reúnem, em um único espaço, o rigor do jardim formal italiano, a teatralidade barroca e o romantismo do jardim inglês.
Portanto, para quem busca turismo cultural em Marche, essa visita se torna indispensável. Atualmente a villa passa por uma grande restauração e podemos visitar somente os jardins em ocasiões extraordinárias, para maiores informações escreva para villabuonaccorsi@cultura.gov.it.

Para produzir esse artigo pesquisei um texto do autor Franco Panzini.